terça-feira, 1 de setembro de 2009

A luz do corredor

Sei que faz tempo que não posto, mas é hora de voltar à ativa. Para isso, nada melhor do que uma crônica digna de menção honrosa no Concurso Literário de Caxias do Sul de 2009.
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Sempre me perguntam quais as coisas que eu quero. Presentes de aniversários, natal ou qualquer outra data comemorativa. Educadamente, respondo o que mamãe ensinou: “não precisa se preocupar em me dar presentes...”. Depois de alguma insistência da parte da outra pessoa, esqueço mamãe e peço alguns CD’s ou livros. Na maioria das vezes ganho peças de roupa.
Nunca disse a ninguém o que realmente queria. Talvez jamais tenha contado sobre meu pequeno sonho por medo de represálias ou risos de tolice. Ou simplesmente porque não tenha encontrado meu verdadeiro mimo nas prateleiras das lojas. Ou porque sabia que meus desejos não se realizariam.
Sim, eu sabia. Sempre soube. Desde a primeira velhinha sobre o bolo de aniversário. Era durante o coro de “parabéns pra você” que eu pedia em pensamento o que adulto nenhum me dera. Mas nem a velhinha, nem a Fada do Dente ou o Anjinho da Guarda, minha entidade máxima, trouxeram o que eu pedia. Contentava-me, então, em discutir com o Anjinho desenhado em um pedaço de papel, que eu acreditava me proteger quando alguém brigava comigo ou quando chovia muito forte.
Mas agora, chega! Vou gritar, vou pedir, vou libertar a minha ânsia pela verdade, vou pedir o que realmente quero (tudo isso, é claro, com toda a educação que mamãe levou anos para me ensinar).
Eu quero que alguém me pergunte se eu estou bem e realmente queira saber a resposta; que alguém me pergunte como foi meu dia, o que aprendi hoje; que alguém me ajude a fazer a lição de casa; que alguém me parabenize por ter gabaritado a prova de matemática; que alguém me repreenda por não estudado para a prova de amanhã; que alguém diga que estou bonita hoje; que alguém saiba qual a minha cor preferida; que alguém diga que eu sou inteligente e aplicada, e que esse alguém não seja meu professor de química.
Eu quero que papai me dê um beijo de boa-noite e deixe a porta do quarto entreaberta, para a luz do corredor entrar e espantar o bicho-papão que está embaixo da cama.
Eu só quero a luz do corredor.
Mas eu sempre dormi no escuro.

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