Gosto desse texto. É um dos meus preferidos. Escrevi pensado em um certo alguém, que talvez nunca tenha realmento existido. Talvez ele apenas tenha sido aquilo que eu queria que ele fosse. Decepcionei-me por ter criado expectativas no sorriso feliz que via no rosto dele. Queria que não tivesse sido assim. Mas não posso reclamar, ele me deu um dos meus melhores textos... O meu frasquinho de vidro.
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Há quem acredite que “a primeira impressão é a que fica”. Um velho dito popular, mas bastante significativo. Devemos estar sempre prontos para a nossa primeira vez e atentos à estreia dos outros em nossas vidas. Uma fechada que volta.
Imprescindivelmente, julgamos de modo precoce nossos mais novos conhecidos. Analisamos as primeiras reações, os primeiros atos e permitimo-nos ao pequeno luxo de prescrever sentenças, escolhendo com que nos relacionaremos, de quem falaremos mal e deixaremos todos os outros caírem nas entranhas de nossa indiferença.
É bastante provável que possamos cometer enganos. Não falaremos mais com aqueles que, pouco tempo antes, nos pareceram pessoas interessantes. Surpreenderemo-nos com alguns poucos. Mas, neste ponto, os que nos são indiferentes terão crescido de número. Serão aquelas pessoas, paradas ao nosso lado e nos acostumaremos a elas como quem se acostuma à móveis, sem nenhuma ou com pouca utilidade.
Contra todas as expectativas, um dia encontraremos uma pessoa que, apesar de todos os nossos esforços, não caberá em nossas conclusões precipitadas e se tornará um enorme ponto de interrogação.
O gigantesco símbolo que nos induz ao questionamento não será causado apenas pela presença do estranho conhecido, mas também por algo que ele trará consigo. Algo que irá interferir em nós, que irá nos incomodar, seja o silêncio que não se expõem à nossa curiosidade; seja a inquietude que atrapalha nossa calma; ou até a felicidade excessiva.
Não estou tentando ser pretensiosa, mas essa é uma opinião que poderia subverter a trivialidade da sociedade: quem tem coragem suficiente para se declarar uma pessoa “feliz”?
Um dia, ouvi alguém dizendo-se feliz. Alguém que havia conhecido há pouco e que poderia ter caído no vácuo da indiferença. Mas não foi tão simples. Meu coração acometeu-se por um estranho e ingrato sentimento: o ciúme.
Por algum estranho motivo, aquela declaração tão confiante de felicidade me deixou perturbada. O inusitado objeto da minha inveja tornou-se meu ponto de interrogação pessoal.
Apesar disso, não demorei para formular minha hipótese a seu respeito: ele pareceu-me um frasquinho, feito de um vidro frágil e quebradiço, mas que guardava uma essência preciosa.
Pensando assim, vi o quão vazias as pessoas são. Todos protegem os seus frascos, cobrindo-os com camadas e mais camadas de qualquer material que lhes pareça impenetrável e não se dão conta de que seus frascos estão vazios.
Não sei o que o meu frasco esconde, mas agora ele ma parece encoberto pelo gelo. Talvez eu ainda consiga derretê-lo e encontrar minha própria essência.
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